Os negros dos Estados Unidos estão em estado de graça. Depois de tantos anos de escravidão e luta por igualdade racial, eles
testemunharam a posse do primeiro presidente negro. Mas o fotógrafo Chester Higgins Jr., 61 anos, já testemunhou muito mais.
Seu último trabalho foi num vilarejo tribal da Etiópia, onde ele acampou por 15 dias. Além de fazer parte da equipe do jornal The New
York Times, ele sai pelo mundo fotogrando a diáspora negra. Suas lentes também mostram que saber envelhecer é uma nobreza.
Em 2001, ele publicou o livro “Elder Grace: The Nobility of Aging”. Nele, oitenta idosos foram fotografados, todos da raça negra.
Todos dizem sim à idade, com entusiasmo e elegância.
Nascido no Alabama, região marcada pela segregação racial, Higgins é hoje um nova-iorquino do Brooklyn. Antes de ingressar no
seleto time de fotógrafos do New York Times, em 1975, ele passava pelo menos 3 meses por ano imerso em pequenos vilarejos nas
esquinas mais remotas do planeta. O emprego limitou o tempo de seus projetos para um mês por ano, mas não podou sua paixão
pela história e herança de seu povo. Seu primeiro livro, “Feeling the Spirit”, cuja exposição rodou o país, reúne fotos como a da Porta
do Sem-Volta na Ilha de Goré, no Senegal, por onde passaram milhares de almas negras rumo à escravidão e à morte. Suas lentes
ainda captaram um rabino negro no Harlem, os olhos de uma menina muçulmana do Brooklyn, o último show de Bob Marley e rituais
de Candomblé, na Bahia.
“A foto nunca mente sobre o fotógrafo”, diz Higgins. A afirmação ficou clara quando nos encontramos numa gelada tarde de domingo
na redação do New York Times. Ele já chega de braços e sorriso escancarados para um caloroso abraço, envolto em coloridas
vestes africanas que destoam dos modelitos preto-inverno que desbotam Nova York. O papo continuou num restaurante etíope,
onde talheres são dispensáveis e o pedido foi feito por ele no idioma “local”. Só me restou confiar.
Tania Menai – Qual é a nobreza de envelhecer?
Chester Higgins Jr. – Olho para as pessoas de cabeças brancas, com mais de 70 anos e com as mentes ainda intactas. Então
procuro a graça e dignidade, elementos que podem vir com a nobreza de envelhecer. Alguns têm cabelo grisalho, outros branco ou
cor de prata. Fotografei pessoas muito especiais, como uma senhora de 94 anos que tinha passado por uma cirurgia de ponte de
safena meses antes.
T. M. – Como o senhor viabiliza os seus projetos pelo mundo?
C. H. Jr. – Durante o ano, faço a minha pesquisa por meio de livros e reportagens, sobre o tema ou o lugar que pretendo ir. Procuro
aprender o máximo sobre a cultura e a história das pessoas. Mas também procuro me familiarizar com o calendário local; tiro as
minhas férias de acordo com as tradições e festividades religiosas. Chego uma semana antes das celebrações e acabo ficando
mais três. Desenvolvi um conceito que chamo de “pescaria” – minhas pesquisas me levam às pessoas chaves que vão me
indicando as trilhas que devo seguir. Ainda converso com antropólogos que estiveram nos lugares pelos quais estou interessado,
para saber o que esperar. Ao chegar, contrato o que chamo de um facilitador/intérprete. Depois de achar um lugar para ficar, alugo
um carro e listo as prioridades. Não há como fotografar com intimidade sem ficar menos de um mês no lugar.
T. M. – E quem patrocina estes projetos?
C. H. Jr. – Para sustentar todo este trabalho, conto com a “Fundação Chester Higgins Jr.” – ou seja dinheiro do meu próprio bolso.
Assumo as responsabilidades pelos meus sentimentos e desejos. Além do custo da viagem, tenho o custo dos equipamentos e da
revelação. Então, para viajar, fotografo até casamentos. Contudo não poderia tirar o ano todo para fazer isso – tenho filhos para
criar.
T. M. – O que o senhor busca na fotografia?
C. H. Jr. – Gosto de ser a “testemunha do momento” – não pretendo interferir na cena, mudá-la ou afetá-la. Quando pessoas estão
passando por momentos muito íntimos, não há como participar – apenas testemunhá-los. Não posso julgá-los nem ter nenhuma
atitude perante a eles. Tento estabelecer uma relação como se eu fosse um amigo que, por acaso, tem uma câmera na mão. Na
teoria, procuro me ver como um surfista num mar de emoções, deslizando de uma forma que me permite observar e documentar o
que está acontecendo.
T. M. – Como a raça negra se diferencia nas diversas culturas?
C. H. Jr. – Adoro observar como a humanidade se comporta da mesma maneira que uma orquestra. Cada cultura tem um
mentalidade e minhas viagens me fizeram descobrir que as fronteiras delimitam os modos de pensar. As mulheres negras mais
sensuais são as senegalesas, há um certo mistério nelas. O que me chama atenção no Brasil é a “cultura da pele” – assim como na
Califórnia, tudo gira em torno da sugestão ao sexo. É a cultura nacional. As pessoas têm uma ansiedade que as levam a
demonstrações mais “desesperadas”. É muito intenso.
T. M. – Qual sua opinião sobre o trabalho de Sebastião Salgado?
C. H. Jr. – Bastante poderoso e intenso. Ele deve ser católico, não?
T. M. – Por quê?
C. H. Jr. – Suas fotos tem um quê de piedade, um aspecto bem católico.
T. M. – O que te fascina na fotografia?
C. H. Jr. – A vida cotidiana é um milagre. Sou muito feliz por poder testemunhar tudo isso e fazer com que as coisas que passam
diante dos meus olhos se revelem tão multidimensionais quanto a vida pode ser. Vim para Nova York para me aprimorar. Minhas
imagens têm de ser competitivas, reveladoras, fazer parte de diálogos. A mídia visual tem um consumidor muito sofisticado. Tive de
me armar com o melhor desempenho possível para fazer com que estas imagens criassem debates, expondo as minhas idéias.
T. M. – Como Nova York te recebeu?
C. H. Jr. – Ao chegar, fui para bancas de jornais, abri as revistas e procurei os editores de fotografia. Ligava para eles e dizia: “Não
quero um emprego. Cheguei do Alabama e apenas gostaria de saber a sua opinião sobre o meu trabalho, para ver como posso
melhorar”. Eu os colocava na posição de professores. Até que um deles, da revista Look, me mostrou os elementos que estavam
sobrando na minha fotografia. Esta foi a minha primeira lição: como alcançar a simplicidade e mostrar o essencial. Adorei o editor,
ele me ensinou tanto que me comprometi a fotografar mais e mais e ir mostrando a ele o meu trabalho. Isso durou um verão inteiro.
Ele chegou a me mandar para o Metropolitan Museum e para o MoMA para observar certos quadros e dizer quais elementos eu
gostava ou não naquelas pinturas – luz, composição, equilíbrio. Ele se tornou meu mentor, pois sentiu qual era a minha missão ao
usar a câmera.
T. M. – E esta missão é...
C. H. Jr. – Fazer da pele e da cultura negra uma influência positiva. Não falo do apelo sexual, mas uma cultura não ameaçadora,
acolhedora, igual a todas as outras. Não tenho o ego inflado. Sou apenas um mensageiro. Para mim, o que vale é a minha
mensagem. |